O poeta António Salvado lança mais dois livros


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Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)


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O VERO SUBJECTIVO NA PALAVRA IMANENTE DE ANTÓNIO SALVADO
«O cântico floriu na bacidez de certas urzes mortas.
Fenderam-se percursos e por vezes pedras moveram o rigor ileso do seu interior, da sua forma». (…) (Os Distantes Acenos)
Um poeta não cabe na terra onde nasceu nem nos locais por onde passa. Todavia, do útero do primeiro chão que ele conhece há um sinal que pode ser entendido como oblação de Prometeu, concedida a quem, roubando o fogo aos deuses, surge no mundo para desvendar os ousados caminhos do espírito. No universo da poesia, recebe ele as coordenadas próprias da alma do locus, para, depois, nesse modo, ligar outras vidas e paisagens: de um paraíso dócil mas estático, ao paraíso em eterno devir na dinâmica descoberta do sempre-existir. «Move-me a luz que vem daquela flor, tão exilada luz… Chega-me esguia a revolver no peito as mil penumbras os mil anseios as mil verdades…» (Tropos) Quem, pela primeira vez, lê um poema de António Salvado, recebe a mensagem de alguém que tem algo de singular para dizer ao mundo. A sua palavra pode requerer uma vida inteira, desdobrada em cenas de tonalidades diversas, de dias aparentemente contraditórios (às vezes dilacerantes), enfim, de paradoxos inevitáveis, mas que a vera subjectividade do poeta une sempre, ao jeito de Ariadne de confusos mas seguros caminhos de achar. Nos primeiros versos lidos, ficamos logo na certeza de uma poesia que nunca se anula, que nunca se repete, e que, sejam como forem os dias do poeta, nunca se esgotará. «O que se deve pedir no começo do crepúsculo é um cântico de luz para a manhã seguinte» (…) (A Flor e a Noite)
A poesia de António Salvado é como aquelas árvores antigas que não precisam de estar na praça pública para sabermos que elas existem em determinado local. Os que as não conhecem poderão também ser conduzidos ao sítio onde elas estão. O valor do achado – como em tudo na vida – é directamente proporcional ao acto volitivo de quem delas se abeira, esforço feito da matéria essencial do gesto da busca. «D. Afonso Henriques (…) Seguro em si, nos copos de uma espada, com ela permitiu o que seria essa grandeza que nascera em nada mas que o tudo talhara em haveria.» (…) (Jardim do Paço) Sem ruídos mediáticos, sem as tristes lantejoulas das modas e fora de pueris apadrinhamentos, apenas com o sol da graça e o destino de ter nascido medularmente poeta, sempre foi o desenrolar da obra poética de António Salvado, que começa a vir a lume no ano de 1955 e não mais conhece “períodos de seca ou pousio”, não sendo, por isso, – perdoe-se a expressão – um poeta sazonal. Há nele uma árvore de vida, árvore poética, permanência inalienável na poesia portuguesa. É claro que a desatenção de muitos leitores contemporâneos se deve a mais que um factor. Alguns desconhecem, outros há que se vão esquecendo, procurando (em nome do progresso acelerado da poesia, como se esta fosse tecnologia!), tantas vezes, onde nada existe para encontrar. Mas o pior de tudo é o que acontece noutro plano, seja por ignorância ou outras razões, já menos aceitáveis que no caso dos leitores. Refiro-me a certas figuras da cultura, investidas de responsabilidades para dar a conhecer a nossa poesia de referência, seja por actos públicos, os mais variados, seja pela organização e divulgação de antologias. «Despojaram-se os campos: o granizo mordaz tudo feriu com sua espada nua – o sangue aguarda tímido o recomeço da sua circulação» (Ao Fundo da Página) «
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus». Não se trata - em nome da legitimidade de qualquer acto poético – de ver ordenar graus qualitativos de poesia, de catalogar pessoas, de arrumar estilos, ou joeirar outros aspectos do fluxo criativo. Impõe-se, isso sim, a observância do que não pode deixar de ser observado. Mas a natureza do homem contemporâneo compraz-se mais na combustão de uma emoção, qualquer que ela seja, à maneira do fumo de qualquer fogo, do que pelo objectivo do prazer da viagem do sentimento, alheia à mecânica dessa combustão. Assim se explica que Goethe tenha dito que se um arco-íris dura mais de quinze minutos, já ninguém olha para ele. Assim se explica que no panorama da literatura portuguesa, com algumas honrosas excepções, se verifiquem estranhas ausências. E o fenómeno é ainda mais preocupante quando assistimos às rápidas e mórbidas mutações que há na lista dos poetas incluídos nos livros escolares, cada vez mais avassaladoras da chamada poesia de circunstância. Não admira, assim, que os nossos jovens, de um modo geral, exibam a cultura que vemos, enquanto uma promissora minoria já rejeita conscientemente muitas omissões. Não se pense, porém, que a obra de António Salvado seja desconhecida, pois quem logo nos primeiros anos da juventude recebe os melhores encómios de Teixeira de Pascoaes e de João Gaspar Simões, entre outros, de mais “certificados” não necessitaria posteriormente. Porém, o que se passa é da mesma lamentável natureza da que vemos quando, por exemplo, em reportagens televisivas, ouvimos respostas ocas a perguntas sobre quem foi tal rei português, tal cientista, tal filantropo. Cultura desviada do essencial? Apoteose do efémero? Bem sintomático das emolduradas invejas do nosso belo quadro de “brandos costumes” é o facto da maior parte dos prémios e reconhecimentos de António Salvado terem sido atribuídos em países estrangeiros. Como em tantos exemplos, não é fácil um grande poeta ser profeta na sua terra, nem que ela seja um pequeno rectângulo! Camões, já antevendo o enigma, encerra «Os Lusíadas» com a palavra inveja, e parece que nisto não se tem meditado suficientemente. Fazendo jus ao verso camoneano «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», costumes e hábitos sociais vão-se modificando, e assim tem-se trocado o espírito de tertúlia pelo espírito clubista. Não se confundam. O clima fraterno, de sincero e respeitoso diálogo, de ajuda mútua (onde, tantas vezes, os autores humildemente se corrigiam) tem dado lugar ao atrevido ambiente de vedetismo, cuja figura principal é sempre utilizada por hábeis manobras mediáticas. «A um Crítico Autor de Versos Filóxeno de Citera foi um dia castigado a mil trabalhos forçados, porque na sua justeza se recusara a louvar os maus versos que fizera Dionísio de Siracusa, tirano daquela terra. (Como tal gente perdura neste mundo em todo o tempo, embora muito me custe louvarei teus versos sempre!)» (A Quinta Raça)
O acto poético de António Salvado dir-se-ia compulsivo, de uma imanência que procura trazer as palavras esquecidas que, só elas, podem criar o verso virgem, enchendo novamente o mundo de inefável força vital, verso limpo de todas as «palavras gastas». «Mesmo no fundo aterrador do poço, sem erma claridade d’uma ligeira luz, acre lugar que cinja, que lanceie como o fogo, algo se vê, difuso mas raiado. (…) (Os Distantes Acenos)
Na Beira-Baixa – local onde nasceu e vive, depois de várias andanças – está o poeta no ofício da palavra que guarda memórias do tempo passado e vive já as do futuro. Cravado na limitação do chão, ou entre terra e mar, aí tem também a sua propulsão para a certeza de um outro céu que está para além do que vemos de cor azul. «Desta janela intacta da saudade eu descortino os horizontes imóveis no seu permanecer de grandezas e despojos vivos. O azul desdobra-se nessa aurora-madrugada que nunca abandonou a esperança». (…) (Face Atlântica)
*Eduardo Aroso
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António Forte Salvado festeja hoje 75 anos de uma vida dedicada ao ensino, à cultura, aos museus, à história da medicina, à literatura, em especial à poesia...
Lembremos as palavras de um Alfredo Pérez Alencart, dias antes do lançamento de "Odes", de António Salvado:
A breve recolha de imagens é um exclusivo tertuliano.
Muitos parabéns a António Salvado!
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“Outono” de António Salvado celebra Dia da Poesia em Ródão
Hoje, pelas 11h00, o poeta António Salvado apresentou aos leitores de Ródão a sua mais recente obra, “Outono”, na Biblioteca Municipal José Baptista Martins. Neste livro, sábia manifestação da sua plena maturidade, o poeta aproxima a sua estética e sensível linguagem à da antiga poesia oriental, de que se revela profundo conhecedor. Darão voz às palavras de António Salvado o próprio autor e a Drª Maria de Lurdes Barata Gouveia, que corporiza como ninguém a poética deste consagrado escritor português, nascido em Castelo Branco.
Este evento foi também a ocasião escolhida para a apresentação do projecto da Biblioteca Municipal “Correio Poético” que, ao longo de um ano, fará chegar, por correio, e-mail ou SMS, textos poéticos, mensalmente, a todas as pessoas ou instituições que pretenderem aderir à iniciativa, bastando para tal contactar a Biblioteca. Com este “Correio poético” pretende-se estimular o gosto pela poesia, em todas as idades, e dar a conhecer novos autores deste género literário bem como textos menos conhecidos de autores consagrados. E, porque sabe que dar poesia é dar humanidade, António Salvado ofereceu um exemplar do livro “Outono” a cada um dos presentes na apresentação, lançando sementes para múltiplas leituras que são, sempre, novas vidas para o livro.
[com base no texto enviado para a imprensa]
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Pastores do presépio
Fundos sulcos da neve a rigidez da face
encontram o olhar traçam caminhos
vêm rotos vergados em demora
(a estranha luz ardendo o horizonte)
Encostam-se ao cajado a fome na tristeza
fixam sombras duma estrela quente
pisam descalços a caruma o espanto
que envolve em sobressalto que amanhã
Levam nos ombros a continua morte
da criança fugaz que em cada instante nasce
Lançam achas incertas no quieto lume
sorvem daquela noite o bafo quente
Nos seus lábios gretados surge a prece
o limiar da esperança sem revolta.
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(Fotografia de Luís Norberto Lourenço. Arquivo Tertuliano/2009)
Manjedoira
De longe que a manhã fora prescrita
as armas recolheram aos museus
os campos revestiram-se de trigo
o azul recente coloriu o céu
d’alem da boca e d’outros céus ainda,
aves voltaram feitas peregrinas,
na terra acasalaram mais os bichos,
no mar os peixes destruíram breus.
Noite do caramelo ameno dia
chegado ao lume do braseiro ardido:
véu rompido onde a paz vai reviver;
de boa e sã vontade se cobriu
o mundo: os homens todos já se uniram!
e nem um Deus precisa de nascer.
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Beber nos olhos o reflexo leve
leve que seja da palavra quente
que uns lábios escreveram sobre o peito
Pôr na tristeza quando os gomos secam
o sorriso que um dia brotará
arbusto abandonado que floriu
Fios de linho recital sereno
a dobadoira lentamente agindo
envolvendo efusivos o calor
E encontrar na suspeita o desejado
o desejo alargado inesperado
e o afago do bem cheio de cor.
António Salvado
In “Utere Felix” (Castelo Branco: Belgaia, 1990)
[Versão castelhana, por Luís Norberto Lourenço]
Beber en los ojos el reflejo leve
leve que sea de la palabra caliente
que unos labios escribieron sobre el pecho
Poner en la tristeza cuando los brotes secan
la sonrisa que un día brotará
arbusto abandonado que floriu
Hilos de lino recital sereno
la devanadera lentamente obrando
envolviendo efusivos el calor
Y encontrar en la sospecha el deseado
el deseo alargado inesperado
y el halago del bien lleno de color.
António Salvado
In “Utere Felix” (Castelo Branco: Belgaia, 1990)
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