fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

sexta-feira, julho 29, 2011

Lenda e mito

Camiño Noia Campos em entrevista ao Público afirmou “Um conto surge da imaginação , consiste numa história ficcionada. No caso da lenda, a história aconteceu memso. Quem a conta não tem dúvidas sobre isso. Conta-a como tendo acontecido próprio, ou com alguém de confiança. Se o contador de história já não acredita na sua veracidade, então já deixou de ser lenda (…)[1].

Alexandre Correia afirma:
“É geralmente aceite de que a lenda é um relato passado de geração em geração, tendo um fundo verídico, onde o objecto de crença pelas comunidades que a respeitam. É uma história não testada pela história. Está localizada numa área geográfica ou numa determinada época, embora os factos históricos “apareçam tranfigurados pela imaginação popular. A existência de uma lenda é, em si mesma, uma consequência da fragilidade da história, ou dos documentos que a fundamentam. Por isso, nasce sempre um espaço nebuloso da história, procurando contemplá-la, ou justificá-la, num quadro de representações do imaginário . (…)”[2].

As personagens da lenda são seres bem definidos e bem representados na memória colectiva, documentos que a fundamentam. Aliás raramente uma lenda começa com a fórmula “era uma vez” como sucede com o conto.

À força de ser sucessivamente contada ao longo das gerações, a lenda passa por um processo de diluição do seu fundo real com a incorporação de uma forte componente imaginativa e fantasiosa, certo é também que sempre contada pela comunidade como mantendo um forte fundamento histórico e real[3].
Como colocar nestes termos a dualidade história/lenda? Será que o destino das lendas é serem “abatidas” pelos historiadores? Serão os historiadores inimigos fatais das lendas? Embora pese o desdém com que muitas vezes se olha para a lenda nas abordagens históricas , na realidade a ciência histórica diz-nos que não. Como sustenta Velasco, não é certo que só à lendas onde não há história, nem história onde há lendas[4]. Toda e qualquer lenda que se preze tem os seus pontos de referência, que vão juntando várias arestas pouco limadas e que em determinda altura olhamos para esses pontos com outro olhar. E é esse o olhar de Dangelo Muller que resume a noção de lenda e de mito através desta forma:
“Algumas lendas, como as etiológicas, são pequenos mitos e os mitos geram lendas locais, daí surgir a confusão entre tais géneros da literatura oral. O mito tem características de ser universal, atemporal e uma acção constante em movimento que se disfarça noutros mitos, enquanto a lenda é local, é um ponto imóvel de referência e que selocaliza obrigatoriamente no tempo. A lenda explica, mágica ou sobrenaturalmente, qualquer origem e forma local, indica a razão de um hábito colectivo de uma superstição”[5].
É desta maneira que surge mais um elemento necessário aquilo a que chamamos símbolo. Ora o símbolo é nada mais nada menos, que uma entidade benigna que é visto nalgumas culturas como uma espécie de espírito protector, enquanto noutras culturas é visto como um ser maligno. Neste caso apresentamos um regresso condicional do homem, ou seja a metamorfose do lobisohomem constitui uma volta do positivismo feroz ao estado pré-humano animal ou bestial, próximo daquilo que o autor chama de “relação hostil “presente na violência, sangue e monstruosidade.
Conclui-se que o licantropo ou lobisohomem assuma vários tipos de arquetipos. Carl Jung que trabalhou o conceito, interliga-o à ideia de símbolos ou inconsciente. O autor acreditava que o arquetipo estaria na parte mais profunda do inconsciente, o chamado “inconsciente colectivo” construído pelas imagens e símbolos impercetíveis.
O arquétipo pode ser a forma típica de pensar e agir do ser humano, baseado em imagens universais, vindas de tempos antigos e mantidas pelo inconsciente colectivo ao longo de várias gerações. Dizer que a ideia de arquétipo está ligada ao símbolo e estrutura implica vincular o conceito a um patamar baseado em símbolos, que se unem e formam, isto é , pequenos modelos psíquicos.
A problemática do licantropo e o cruzamento das leituras míticas, arquétipas e símbolicas obtêm-se através de um corte epistemológico referente aos elementos componentes do mito em si, os quais permitem a sua fixação no suposto subconsciente colectivo formulado por Jung .
A crença mais generalizada do lobisomem como o último dos sete filhos varões e em rigor, de filhos que nasceram de seguida, sem irmã de permeio.
Segundo um artigo no “Almanaque de Lembranças” para 1870[6], nos arredores de Lamego. A existência de um lobisomem está dependente de várias circunstâncias.
Assim morrendo alguém que se julga ter sido vítima de uma bruxaria, transforma-se depois em lobisomem com a propriedade de tomar algum tempo a figura de um lobo, de um jumento, de um bode, ou de um cabrito montês, outras vezes o lobisomem gera-se quando algum jumento se espoja no chão ou aparece uma bruxa, e esta diz algumas palavras incompreensíveis. Gera-se também espontaneamente quando havendo numa família um certo número de filhas, aparece um filho. Dando-se neste caso é forçosamente lobisomem. Há meios de evitar que o sétimo filho seja condenado a ser lobisomem. “Logo que nasçam três filhos varões seguidos, o terceiro deve ser baptizado com o nome de Adão; não tendo havido essa preocupação e completando-se a série de sete,o último deve ter como padrinho o irmão mais velho. (Foz do Douro)” [7]
Nos Açores e no Brasil o meio consiste no primeiro dos sete irmãos a dar nome de Bento[8].
Segundo os relatos a data em que se dá a primeira transformação começava aos 13 anos. Esta metamorfose decorria geralmente numa noite de lua cheia.
Os lobisomens apresentavam-se às horas do crepúsculo numa mata ou lugar sombrio, e de noite atravessam povoações fugindo e fazendo grande barulho nas ruas, barulho esse que é ouvido especialmente pelas pessoas que querem influir. Os malefícios piores são os dos lobisomens que têm a forma dos pés de cabrito ou cavalo, quando se vê algum destes seres deve-se repetir três vezes: “Avé Maria, Avé Maria, Ave Maria, dá-se um grande estoiro e rebenta”[9].
Em Coimbra havia na Couraça de Lisboa, na muralha acima da praça da Alegria , uma pilastra ou ameia que derrubada por um lobisomem. Numa outra história recolhida por Adolfo Coelho, a história dos lobisomens parece confirmar a história de comer crianças, tal como a história infantil que tantas vezes ouvimos.
“Um homem que tinha o fado de lobisomem e foi uma vez para a carrada (buscar lenha ao mato) e levou o filho com ele:
- Deixa-te estar aqui no carro, e se vires alguém ou algum burro, chuça-o com esta vara .
O carro ficou no carro e de noite, enquanto o homem foi para o seu fadário, os bois regressaram a casa, mas nem apareceu o filho, nem o pai. O pai entrou em casa, depois de ter comido o próprio filho, tendo aparecido à porta de casa na forma de um cão, pouco depois de ter novamente a forma humana. No momento em que chegou a casa, pediu à mulher que o catasse . Estava muito amarelo e cansado. A mulher estava muito preocupada , porque o filho não aparecia e começou a perguntar ao marido:
- Quando é que aparece o rapaz?
- O rapaz há-de aparecer . - respondeu ele .
- Mas onde é que tu andas-te? Não foste à carrada?
- Fui dar um passeio. Estou tão enjoado que tenho vontade de vomitar. Ao vomitar o homem acabou por fazer sair o filho de dentro de si[10]”.

[1] Cf Paulo Moura , op.cit , p.4
[2] Cf Alexandre Correia ,op.cit
[3] Cf idem , ibidem
[4] Cf idem , ibidem
[5] Cf Dangelo, Muller, Mestre Amaro, um lobisohomem do Canavial: a representação do Licantropo em Fogo Morto ( Dissertação de Mestardo em Literatura Brasileira, 2009 )
[6] Cf Almanaque de Lembranças para 1870, p.341
[7] Para este assunto veja-se a obra de Adolfo Coelho Obra Etnográfica reeditada em meados dos anos noventa ( introd e notas de João Leal ) p354
[8] Cf Almanaque Açoriano , n. 1868, p.111 e ainda em Almanaque de Lembranças , n. 1860, p.181
[9] Cf Almanaque de Lembranças ,S/ D ,
[10] Cf Adolfo Coelho , op.cit , p. 354 e ss

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domingo, julho 17, 2011

De que falamos quando falamos sobre lendas e mitos ?

A 17 de Junho de 2010 folheava numa tarde o jornal Público quando olhei para um artigo que me chamou à atenção “As lendas só são lendas porque acreditamos nelas”[1]e pensei em inscrever-me no mestrado em História Contemporânea para desenvolver um aspecto único, fora dos parâmetros centrais da política ou da questão institucional. Interessava-me recolher as memórias dos descendentes de homens e mulheres, que durante anos tinham tido a fama de se transformarem em lobos e lobas nas noites de lua cheia, e que por algum azar teriam que viver com esta maldição. Pensei logo que era mesmo aquilo que eu queria estudar num futuro mais próximo. Estudar o lobisomem, como também procurar respostas para um fenómeno que hoje em dia afecta a extinção do lobo visto como o mau da fita, o animal que come as ovelhas, um ser sanguinário e predador. O lobo foi vítima do imaginário popular que fazia dele nas fábulas, nos ditados populares, em contos e sobretudo nas histórias infantis aquele ser mau e pronto a abater. Para tentar compreender este fenómeno decidi traçar cerca de dois mil anos de história na qual o lobo e o cão foram-se separando nesta aventura tomética. Durante esta demanda decidi pesquisar não só romances, como também relatos orais, processos judiciais e moedas onde o lobo surge como totem de uma determinada comunidade. Por isso não pude deixar de recuar aos tempos pré –históricos e observar as diferenças entre o lobo, o homem e o cão.
Se a ideia inicial era estudar um grupo de pessoas que eram descendentes de homens e mulheres que tinham fama de se transformar em lobos, a tarefa tornou-se inglória, porque os entrevistados se tornaram indisponíveis, porque temiam ser catalogadas como familiares de monstros, loucos haviam sido internado em hospitais psiquiátricos.
Desta forma fui obrigado a mudar o plano de estudo do meu trabalho e os objectivos inciais, se numa primeira fase seria estudar a forma como decorria a vivência entre familiares e comunidade entre as mesmas pessoas, agora já não havia mesmo dúvidas, mesmo sendo um caso real de foro psicológico, denominado licantropia, havia reminisciências de um passado nas zonas do Norte do País . Grande parte da população da região de Setúbal, assim como noutras cidades são oriundas de zonas montanhosas do Norte do País e mesmo as zonas mais próximas como Azeitão e Palmela poderiam ter estas mesmas histórias. Contactei o museu de Palmela, estive no Arquivo Distrital onde pensei encontrar alguma história ou processo judicial que se pudesesse encontrar vestígios entre o crime e a crença nesta lenda milenar.
Parti então para a segunda fase deste trabalho investigar a história do lobisomem a partir da sua origem, de que forma é que é que foi criada esta lenda e se foi desenvolvendo até ser escrita por diversos autores e ser contada em histórias para crianças foi um passo.
Costuma-se dizer “quem não caça com cão, caça com gato” e foi o que decidi fazer. Procurei os relatos orais recolhidos no século XIX por Adolfo Coelho[2].
O lobisohomem é um ser por excelência muito rico na tradição oral e na literatura em pormenores e histórias relatadas desde a Grécia Antiga, muito embora se possa conhecer uma aresta desta história, decidi pegar em todas as versões e juntá-las até chegar a uma conclusão. Sendo frequente ainda na representação destas histórias de que o lobo surja como companheiro do homem,ou simplesmente corredor, por correr fado. O certo é que a crença popular refere também o cavalo, o burro e o bode. Não se estranha por isso que no fadário popular, o lobisomem enquanto produto da fantasia popular, possa ser considerado como uma tentativa de apresentar uma criatura onde se conjuga a ferocidade maléfica do lobo com as emoções, angustiadas ou igualmente maléficas do homem. Aliás a fantasia tem a característica de produzir seres e situações que “não são materializadas” e que por isso, são apenas indícios para quem os cria ou para quem neles acredita.
O que me interessava investigar na história do lobisohomem, não é só aquilo que foi transmitido ao longo de milhares de anos, mas também o que fez variar a história do lobisohomem, por diversas culturas e em casos especiais se transformou numa espécie de ingrediente local condimentado à moda da cultura autócne.

[1] Cf Paulo Moura “As lendas só são lendas porque acreditamos nelas “in Suplemento P2 (Público)ano XX ,5ª feira 17/6/ 2010 , pp4 -5
[2] Adolfo Coelho, Obra Etnográfica , Vol. 1 , Festas , Costumes e Outras Matérias , col. Portugal de Perto , P.D. Q, pp354-

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