fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

terça-feira, março 23, 2010

À procura de Hórus (Cap. III)

Ihy chorava copiosamente.
- Ele não pode ser o assassino. Tem que haver outra razão...
- E há – disse a egiptóloga. Neste congresso de egiptologia debate-se precisamente quem está acima de nós. Quem são os deuses? Que estratégias devemos nós tomar para resolver o problema da doença em Dendera no tempo mítico, porque se o deus Horus não procriar a história mitológica irá desaparecer, assim como a harmonia e o tempo calmo sob a prudência de Maat, uma outra ave que está junto de Osíris no tribunal dos mortos. É ela quem pesa as almas dos defuntos, quando retira a sua pena e coloca-a no outro prato da balança. Querem vir comigo? - perguntou a especialista na iconografia das damas aladas .
Eu ia. Pelo menos sabia ao que ia. Queria saber como toda aque aquele congresso terminaria. Estariam lá a médica da clínica “trngenivs” que estudara Jill Bisphop, uma mulher mutante que tinha características semelhantes à deusa Ísis, o médico legista que tinha feito estudos com o pé de Nikpul e que tinha radiografias e um plano completo feito do estudo de 30 anos da hibernação deste activista político e que comparava com o deus Osíris. Para além disso, estavam lá os grandes nomes da egiptologia. Até investigadores portugueses lá estavam. O tema do colóquio era “De Osíris a Nikpul - Do tempo sagrado ao tempo profano”. Era sem dúvida uma homenagem justa a Mircea Elíade. Todos nós esperávamos pelas comunicações. Dali sairiam as soluções para os problemas que se estavam a acontecer. Foi então que nos apareceu uma jovem egiptóloga que usava um coelho como mascote. A Alice, de Lewis Carroll ia fazer uma apresentação sobre um monstro que era procurado.
“Kayak será parente de Ochorrinco?”, era o tema da comunicação de Alice. A jovem egiptóloga afirmava que os monstros de cor avermelhada com forma de tubarão, eram equivalentes ao peixe que comera o membro de viril de Osíris.
Alice passava a explicar a sua tese: - O pé de Nikpul encontrado pela equipa da “tragenics” não é mais que uma variação do membro viril de Osíris, enquanto no mito de Osíris este perde o seu membro viril e é comido pelo peixe Ochorrinco. A colaboradora do chefe da clínica de engenharia genética dera o pé de Nikpul a este monstro que o torna numa espécie de decalque da história descrita por Plutarco.
Se na história do mito do rei fundador Osíris, não só o fundador da realeza egípcia como quem deu a conhecer a agricultura aos habitantes desse mesmo país, foi vítima de uma artimanha de Seth, o próprio irmão. Este fez-lhe uma festa surpresa convidando todos os presentes a experimentarem um caixão. Seth tinha a armadilha muito bem montada e ao experimentar o caixão Osíris é cortado aos pedaços. Seth espalha os pedaços do corpo por todo o país e seria a sua esposa e irmã Ísis a encontrá-los, e ter relações sexuais mesmo depois de morto. Ora esse mesmo membro viril será o equivalente ao pé de Nikpul. Essa foi a segunda comunicação em que o médico legista faria uma narração rápida da história de Nikpul e de seguida uma espécie de decalque das duas histórias, entre a escrita por Billal e a de Plutarco.
- Em primeiro lugar, afirmou o jovem médico legista, o pé para Chevalier segundo o Dicionário dos Símbolos não é mais do que a recriação do falo humano e nesta narrativa a perda do pé retoma o mito de Osíris. Nikpul é Osíris redivivo. Isto é, o activista político foi congelado não pelos ciúmes de um familiar, mas sim pelas suas ideias políticas e se manifestar contra as experiências científicas. O período de 30 anos corresponde exactamente ao período equivalente a um mês e que percorre o jogo da vida e da morte, dos dias e dos meses em que o corpo poderá a vir ser embalsamado.
Durante esse mesmo período traz de novo um homem comum à vida e, que por uma circunstância miraculosa tem outra visão. O homem desde o seu nascimento tem um duplo – Ba - que o segue por onde quer que ele vá e o seu abandono leva à morte desse indivíduo, regressando procura o cadáver na sepultura. Devendo a mumificação corresponder ao indivíduo morto de modo a identificar.
Esta ideia de movimento acentuava-se com a ave que identifica o Ba e com a capacidade de corresponder à Duat, o universo dos mortos, e regressar ao corpo que pertencia, ou às estátuas que o podiam albergar. A ausência de determinado indivíduo leva-nos a observar um outro aspecto do quotidiano, que nos tempos livres os egípcios tinham vários jogos entre eles, o senet, um jogo feito sobre um tabuleiro de 30 casas onde se movimentavam peões. A própria palavra senet significa passagem, e este jogo simboliza a viagem para o mundo dos mortos. Assim, encontram-se representações de pessoas a jogar ao senet contra um adversário ausente nos monumentos fúnebres. A ausência de um adversário humano indicia a presença de Osíris. Na obra que analisamos “A feira dos imortais”, os deuses jogam o monopólio. Neste mesmo jogo há uma ausência de adversário que se verifica desde o início da narrativa que é Horus. A narrativa de Nikpul conta-nos várias histórias. Todas elas interligadas sem darmos por isso mas num olhar mais atento notamos que a apropriação do corpo de Nikpul por Horus retrata sem dúvida a história da divinização do faraó e de que este é o representante da Casa Real.
Para nos centrarmos neste caso basta recordar a história de Plutarco em que o faraó morto é Osíris e o vivo é Horus. Horus é filho de Osíris concebido mesmo depois de morto após a restituição dos 14 pedaços do corpo. Mas para isso basta ir mais longe teremos que recuar às narrativas do Antigo Egipto.
Teremos que recuar cerca de cinco mil anos atrás nem que tenhamos de dissecar todas estas narrativas juntas nesta trilogia, garanto-vos.
- Como pode afirmar isso? – pergunta alguém da assistência .
- Em primeiro lugar temos aqui uma banda desenhada, mas no entanto o autor copiou várias narrativas, faz-nos crer que as personagens da obra sejam eles deuses ou não, comportem-se o mais naturalmente possível de modo que o seu mundo passado seja também o seu futuro. Está a copiar várias mitologias como se encontrássemos aqui várias testemunhas silenciosas dentro de um pequeno pedaço de papel. E estamos diante do quê? – pergunta o médico legista.
- De uma banda desenhada – responde a mesma pessoa da assistência.
- Então não reparou em vários aspectos como o texto e as imagens são um meio de comunicação, e as imagens relacionadas entre si e contam uma ou várias histórias? – perguntou Alice juntamente com o jovem médico.
- O que queremos dizer, meu caro senhor é que a sequência dos desenhos, as representações das acções, cenários, paisagens deve proporcionar um bom entendimento para a história. Tal como as antigas vinhetas. Essas vinhetas em egípcio chamam-se sechemu ou tut, palavras para designar as ilustrações que acompanham certos textos, sobretudo os de carácter funerário como os “Textos dos Sarcófagos”, “O livro dos Mortos”, o “Livro das Respirações” e outras compilações de timbre mágico. São complementos ilustrativos do texto que facilitam o seu entendimento, e de uma certa forma podemos dizer que incorporam a sua essência, uma vez que a imagem no Antigo Egipto tinha tanto valor quanto a palavra.
As dimensões de uma vinheta variam desde as pequenas e simples até às representações muito pormenorizadas. Como as que encontramos nas paredes dos túmulos. As representações nas paredes fazem-nos pensar que são os antepassados da banda desenhada.
Por exemplo, conta-nos históricas, se parece que estamos diante de um cadáver embalsamado, estamos diante do Deus que acompanha o morto até ao tribunal de Osíris. Quando falta um adversário no jogo monopólio com que autor pretende ironizar, está a falar-nos de senet e não do monopólio. Nessa ausência e ao longo das imagens vemos o aparecimento de Nikpul que é o decalque de Osíris. Osíris surge na forma de um ser humano tal como falamos anteriormente, pois apenas esteve congelado durante trinta anos, o que corresponde ao senet. Os que o condenaram – os donos da empresa “trangenics”, por ele ter denunciado casos de criogenia, engenharia genética e tráfico de órgãos -, também estão de uma certa forma a jogar a este jogo milenar. Por isso quando nos surge o monopólio vemos que os deuses nos estão a chamar à atenção e que alguma coisa está a afectar o passado. É esse o papel desta conferência. Abordarmos a história de Osíris nos dias de hoje mas que se passa ao mesmo tempo em que Horus procura um corpo para habitar e que seja compatível com ele que não tenha sido contaminado pela engenharia genética, tal como a mulher que ele seduz, à partida não é um ser humano, mas um mutante. Um ser que foi submetido a estudos pelo interesse de uma médica homossexual. Diante destas várias camadas de tinta ou histórias estamos perante outras histórias. A mulher que encontramos aqui pode ser a representação da antiga rainha, mas as suas lágrimas azuis caracterizam a renovação e a recriação do universo. É em Jill Bishop que Horus irá tentar deixar o seu sémen. Ao longo da obra a personalidade de Jill Bishop vai-se alterando desde o início em que ela é presa pela “trangenics” ainda tem traços de um ser não–humano que conversa com um homem de outro universo cujo o seu rosto nunca é revelado, porque vem de um outro universo. Pode-se dizer que Jill Bispoh só confia neste homem, é através dele que Jill decide fazer os testos que Edna, a médica da clínica de engenharia genética, pretende. Toda a acção entre as duas mulheres insinua um contexto homossexual, já que a médica se interessa pela mutante. Ao longo da obra assistimos à transformação de Jill Bishop. Numa primeira fase as suas longas amnésias são fruto do tratamento prescrito pela médica. Quando o hotel em que Jill se encontra é invadido por homens que lhe pedem a documentação, as suas atenções viram-se para umas penas já identificadas anteriormente. Jill admite usar essas penas apenas para seu bel-prazer, insinuando fantasias sexuais. As mesmas penas não só a prova directa de uma tentativa inicial de violação e como Horus manipula ao mesmo tempo Nikpul e Jill. Neste caso estamos diante do mito da divinização do faraó. Mas há ainda um aspecto que não observamos é o cabelo de Jill Bishop. A mutante tem um cabelo azul, cor de lápis-lazúli que representa a cor do cabelo dos deuses. Ao longo das cenas da procriação observamos uma orgia de prazeres onde um deus incorpora no corpo de um ser humano. Esse ser humano é fundamental para o deus Horus que o usa para os seus interesses.
Depois de uma longa intervenção dos participantes para colocarem as suas questões chegou a altura de Edna ser chamada ao palco para prestar as suas declarações e descrever o trabalho que fizera para a “trangenics”. Edna demonstrou ter uma profunda admiração por aquele que viria a dar a morada de Jill Bishop no futuro visto reconhecer nele as potencialidades de um futuro marido para a sua amada Jill Bishop e ver nele o pai do pequeno Horus. A médica olhou para Ihy. O jovem deus gritou: A senhora é a deusa Neit! É a mãe de Sobeck!
Um dos membros que presidia na mesa redonda pediu calma ao jovem deus. Mas o jovem deus estava verdadeiramente excitado e os olhos dele brilhavam, gritando–lhe: Neit é excelente!
O pequeno deus passou a explicar que a médica tal como a deusa estava presente nos nascimentos e nas mortes, era a guardião de todo o sistema de criogenia, tal como a Deuse Neith. Podia estar ligada à medicina tal como as outras duas deusas Sekmet e Bastet. Se uma delas estava ligada à maternidade, a outra estava ligada à guerra. Neith escolheria quem ganhava a luta pelo poder, se Osíris ou Seth.

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