fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

terça-feira, fevereiro 03, 2009

O pecado de Senaqueribe ou o nascimento do policial histórico?

Muito antes de Conan Doyle, Agatha Cristie, ou até mesmo Ellis Petters a escritora inglesa que criou a personagem do irmão Cadafael que ficou para sempre marcada por um monge detective na Idade Média que antes fora um homem igual a tantos outros que participou nas cruzadas . Talvez quem não tenha tomado atenção à secção policial já existem várias vertentes e a elas estão ligadas os seus prémios que têm o nome da escritora inglesa (Ellis Peters). Murder Historical é o nome do prémio ou pelo menos é parecido. Hoje não estamos aqui para fazer a apologia do policial histórico ou daquilo que comecei a definir é que esse prémio criado em Inglaterra já premiou alguns escritores notáveis e eles estão por vezes fora do romance policial nas bancadas das livrarias , talvez porque quem os receba e recepcione os mesmos desconhece tudo isto. Hoje estou aqui para vos falar de algo que aconteceu à muito tempo . Muito tempo antes da escrita, dos tempos que nós os conhecemos já os antigos escreviam policiais talvez porque o destino ou os deuses assim o quiserem .Estavamos em 681 ac . Há um homem que morre em circunstâncias misteriosas. Mas acontece que esse homem não é um homem qualquer a ele estão as decisões de um país, as leis e as instituições. Esse homem ficou conhecido pela Bíblia por ter pecado ter invadido a Palestina. A história antiga nomeadamente a do médio oriente antigo é muito interessante e dá-nos a visão de um castigo contra este homem que tinha uma visão estratégica de criar a topografia realista e não usar nomes de deuses. Pragmático Senaqueribe, o Grande decidiu a morte vir ter com ele numa tenda de guerra. As razões são mais do que muitas. Estas questões até poderiam ser desenvolvidas num policial histórico, mas como se sabe escrever um romance histórico tem que se lhe diga. Até porque existem quem torça o nariz a estes romancistas. Os primeiros estão os historiadores que apontam as falhas a esses romances. Para se escrever um romance histórico tem que se conhecer a época em que as personagens vivem, conhecer as técnicas de investigação da época. Pelo que sei este episódio ficou para a história como uma daqueles casos mal resolvidos ou quem sabe nos meandros do poder. Visto que o assassino sabia muito bem o que estava a fazer. Se o tivesse deixado debruçado junto à sua cadeira ou caído. Teriam posto toda a sua iconografia e ideologia real. Não que eu queira ser demasido técnico mas a história da arte , a arquitectura podem explicar estes mecanismos. O palácio, as imagens. Tudo é a salvação de uma instituição. O assassino queria talvez esse trono e não queria perder , não queria pôr em causa. Receber esta informação e outras leva-nos também olhar para correspondência. Até hoje não sabemos quem foi este assassino ou assassina que teria levado toda a população de Nínive com uma questão: Quem matou Senaqueribe?

Trinta anos atrás encontramos uma pista durante um Congresso de Assiriologia um jovem investigador na altura levou a cabo uma revolucionária tese que faria da morte de Senaqueribe um caso policial.

Até hoje esta história não me deixa de perseguir e anseio um dia escrever um romance baseado neste caso na misteriosa morte de Senaqueribe. A ele estão várias personagens a sua bem amada Talima Nasherim que é por ela que ele irá mudar as leis das mulheres. Recentemente Julian Read conservador do British Museum desenvolveu um artigo sobre este monarca. Nele o assiriólogo britânico colocava a questão: Será Senaqueribe um feminista? Terá sido esta uma das razões que levaram à morte do rei no fatídico ano de 681 ac?

Podemos no entanto ir buscar os meios historiográficos da época que são muito ligados a uma espécie de puzzle que se vai juntando essas mesmas peças através do procedimento dos visitantes, todos eles eram revistados. No entanto havia um procedimento usual nesta época: a pessoa que falava com o rei era obrigada a usar um véu. Isto traz-nos à lembrança do início deum romance policial: o assassino é recebido pelo rei como um visitante que traz um aviso alguém quer matar o rei: Mas é este que o mata. Em 1979 Simo Parpolla desenvolve então o padrão de que este criminoso preparou. Quem lida com questões de ideologia, as razões de poder sabe muito bem aquilo que estou a dizer. O palácio na Mesopotâmia não só era uma obra de arte, como uma autêntica instituiçaõ que aí estava instalado toda se não quase uma população. JeanCleaude Margueron tem desenvolvido esta e outras questões em várias obras sobre A Mesopotâmia. E este episódio do crime pode estar incluído. Além do mais as cartas, documentação da época tratam da relação dos familiares do rei sobre a situação de uma mulher que poderia entrar na monarquia assíria. Tal como um bom romance policial este caso foi investigado a pente fino pelo autor filândes: Simo Parpolla. Quem quiser ler a sua tese poderá pesquisar no Google pelo nome do autor e chegar ao trabalho que foi desenvolvido para esse congresso no longíquo ano de 1979 pode ler o original que fica sempre bem e ler a tradução que pode verificar que tudo nem sempre é perfeito. Deste modo ficamos a saber não só aquilo que era costume, os procedimentos dos palácios quanto aos vistantes, os relacionamentos familiares, os códigos de leis e até mesmo haver aqui como definiram alguns autores como uma espécie de Pecado.

Se um dia escrever sobre esta história darei certamente um título. Não será certamente Crime na Mesopotâmia porque Agatha Cristye já o escreveu e não tem nada a haver com este caso, mas sim sobre aquilo que ela estava habituada a fazer quando esteve casada com Malloman: Ouvir relatos de escavações, principais problemas e o estado em que se encontravam e principais hipóteses a dar no trabalho de campo. Mais uma vez apelo para o uso dos meios historiográficos da época. São parciais e por vezes pouco credíveis, digo isto, porque hoje em dia a ciência história tem outros critérios e até já usa as testemunhas orais como fonte histórica como foi abordado recentemente num simpósio internacional sobre história contemporânea promovido pela Fundação Mário Soares em pareceria com a Faculdade de Ciências sociais e Humanas. Nesta área não podemos usar os testemunhos escritos mas outro género , memórias escritas, relatos ou até mesmo formas de arte, episódios bíblicos, as cartas, tudo está praticamente ligado até chegar a um veredicto. E aí sim chegar ao Tribunal da História como baptizou Mário Liverani à oito anos atrás numa comunicação no Congresso Comemorativo dos dez anos do Instituto Oriental. Aí se definiam as princiapais linhas de orientação da investigação do médio oriente antigo. Assim sendo colocaríamos uma questão: Será este caso ou simples episódio passageiro como tantos outros da história da antiguidade ou daria para reinventar a história do policial português e neste caso do romance histórico? Dar-lhe –ia então dois períodos as personagens históricas e as ficcionais e os casos analisados pela historografia com base numa sólida base científica. A história está aí em partes, hoje com pouco mais de 100 anos ou talvez até mais ou menos quem sabe. A Assiriologia conta com uma enorme variedade de técnicas que vai da filologia, à religião, política, esconomia, química e muitas outras àreas do conhecimento. Basta apenas por mãos à obra. Como nos romances policiais poderemos reunir todos os candidatos a assassinos, dar os possíveis motivos que os levariam a cometer o crime e no fim dar-se-ia o resultado final. Tal como o detective de um romance policial que lança a isca para fazer cair o assassino também nós lançamos o mote. Quem sabe que não haverá por aí alguém que queira resolver este caso dando fim à terrível questão da praxe muito próxima das novelas: Afinal, quem é que matou Senaqueribe?

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