fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

terça-feira, dezembro 09, 2014

Capítulo sétimo Fotossíntese


Caetana acordou. Olhou em redor  . Nada daquilo que vivera  era real. Apenas um sonho. Um sonho que a transformava numa escritora . Sentia apenas uma vontade infinita de escrever . Já não era ela  que ali estava  mas somente a escritora  que precisava de investigar a história de Naram- Sim e de blocos de arte neo-assíria  com o título de Relevo-Luz . Ela nunca acreditara  na história feita . Nas longas listas de reis Caetana sempre achara  que havia muito mais do que uma simples descrição de batalhas . Desde  que se conhecia que duvidara sempre de tudo .

-     Deixe-me ver o livro  que está escrito como o relevo da luz . Alguém provou que o relevo neo-assírio é uma espécie de fotografia , procura não só espelhar a imagem  bem como a magia simpática . Parecem  histórias saídas de romances de ficção científica . O autor em questão lera muito Carlos Costaneda .

-     Como sabe tudo isso ? –perguntou um rapaz de cabelos compridos .

-     Eu sou fanática  por arte neo-assíria . Um dia irei decorar as paredes dos quartos dos meus filhos com estes desenhos .

Caetana  estudava a imagem  do baixo relevo como um livro  aberto de banda desenhada onde as imagens projectavam uma história nacional  e ao mesmo tempo fazer aquilo que mais tarde Maquiavel faria  no século XVI, no entanto a natureza das imagens levava a uma semelhança com os textos bíblicos . Tomara  contacto então com François o jovem estudante francês de que conhecera  em Paris e que lhe contara o seu projecto de ir para Portugal  estudar  o relevo-neo-assírio da Gulbenkian . François dissera-lhe que a cor dos relevos era propositada e sem tirar nem pôr tinha uma certa semelhança com a tese  da sua colega Carlota Joaquina .

A princípio  achara que era uma fantasia mas chegara a uma conclusão  houve de facto interesse pela  cultura entre a  Alemanha e Inglaterra  no desenrolar da primeira guerra mundial .Ao seu redor  a luz do Sol desaparecia timidamente . O movimento das pessoas é quase mudo ,uma tristeza acompanha as suas vidas como se de uma sombra se tratasse . Nesses pontos os eléctricos param , passam a linha  do tempo  e da memória , são como pistas de carrinhos  que avançam  perante  o sinal . Olho para as fotocópias no momento em que me preparo para me encontrar com François e carlota . Acho o francês extremamente simpático  com quem vou irei abordar a temática dos baixos relevos . As notícias surgem como um mar maior transportando uma outra realidade , distante daquela a que estamos habituados aos nossos medos . Vejo-os com única  vontade sobreviver e é no café  que conversamos sobre estas matérias da cidade  que temos e que olhamos para os outros e que achamos que todas as vidas são completamente indiferentes . Insignificantes diz Carlota  . Eles olham-na . Ao  verem o mundo  compreendiam   a mais  pequena massa anónima , chegando  à conclusão que para se amar é preciso viver  mas procurar as verdades . Nisso Carlota apesar de ser uma excelente investigadora tinha falta de experiência de vida , sempre tão amargurada. François tinha imensa paciência com ela . Tantas pessoas dariam para ter a sua vida , mas de resto carlota resumia –se a sobreviver. Primeiro  a crítica deitara-a a abaixo e ela tornara-se amarga .  Encontrava-se então numa busca . Numa verdade . De um momento para o outro só a história o permitia a essência do encontro do ser humano o permitia . Agora olhava para a cidade num só ângulo , no local onde me dirigia viam-se os restos mortais da história nacional , aqui e ali via turistas  que procuravam locais ou pura e simplesmente restaurantes . Agora perto do local de encontro via os miolos das habitações , como se fossem cadáveres , ali não se invocam as almas dos mortos , as desses só encontrando num outro ponto da cidade na torre do Tombo . Recordou-se do cristo redentor ,num ponto mal abraçado que já nem se vê a ponte , entro dentro do bar e lá estão eles os dois acenando-me .

Depressa as duas raprigas se degladiavam . Carlota  Joaquina a monárquica  e a outra  Caetana de esquerda definitivamente . François olhava-as deliciado. Agora as duas tinham uma discussão descomunal sobre as instituições . Carlota Joaquina olhava a outra verde de raiva . Ele conhecia as fúrias castelhanas , dos rios de sangue que eram habituais aquela artista . Outros assuntos voltavam à baila  como a despenalização  do aborto  e das drogas leves . A jovem espanhola  dizia-lhes  que tinha encontrado um texto  que era  equivalente ao que havia sido encontrado na Turquia  e que um arqueólogo lhe envia mandado pela internet. Carlota  Joaquina nunca abandonara  o projecto desde  que lera o livro Textos Literários hititas  do Professor Alberto Bernabé Pajares .  A sua tese intitulava-se Há histórias  felizes ? Esperava despertar lendas , contos e mitos que despertassem uma realidade .Agora citava o professor José Nunes Carreira “História antes de Heródoto “« Se a historiografia hitita do império merece verdadeiramente  o nome de historiografia autêntica   é uma questão académica . Os hititólogos podem terçar armas a favor ou contra. (...)»  Apesar  das suas opiniões diferentes sobre as instituições e do resto Carlota admirava a postura fria de Caetana  enquanto investigadora . Carlota ouvia agora  as vozes e medos do seu  coração. Os três encontraram-se ali por amor à investigação , apesar de François trabalhar ali numa arte nobre a do humor. Mas o humor de François nascera da necessidade de destruir a organização e o primor das suas células , deixou-as por momentos para se preparar . Voltaria dali a duas horas sabia-se lá  o que aquelas cabeças  iriam fazer naquele bar durante a sua ausência . François lembrava-se dos delírios de Carlota na biblioteca nacional  quando necessitaram de fazer uma pesquisa  para  os seminários de doutoramento. Lembrou-se de como Carlota começara a gritar pela espera demorada  de uns livros . François tinha outra personalidade . Aturava-a tanto que tinha alcunha de “Santo Palhaço “ diziam os restantes frequentadores  da biblioteca . Mas Carlota era outro género , apesar de ser de uma outra estirpe , outros diziam que ela era apenas uma menina mimada  e frustrada porque o seu romance não dera certo e tinha sido arrasada pela crítica .   A conversa entre as duas versava sobre a placa de argila encontrada na Turquia , mas na calha Caetana tinha outra matéria que dava pano para mangas . Quando estivera em Amesterdão  encontrara no mercado negro uma pequena parte de um texto em acádico  que mostrou  o percurso. Ambos sabiam como se processavam as questões de cultura na antiguidade  e como o professor José Nunes Carreira o atestava no livro a Historiografia Hitita  as semelhanças com a figura de Naram-Sim .  Caetana  especializara-se sobre a figura de Naram- Sim e tencionava  estudar a lenda em torno de Naram-Sim . Apaixonava-a  a figura dramática daquele monarca  que tinha tido o universo aos seus pés e o perdera , por isso estudar  com a “Histérica “era um privilégio, já  que ela era um assombro na matéria da investigação pré –clássica . Porque é que ela não se dera ao trabalho de falar sobre ela mesma ? Mas naquele momento estavam todos desolados  com a sorte de Madalena . Por fim Caetana disse a Carlota :

-     Sabes  o que acho? A lenda de maldição de Ur não retrata  de forma alguma a questão religiosa , mas está decisivamente relcionado com este tratado futurista. 

-     Como é que podes ter tanta certeza ? –perguntou-lhe a hititóloga .

 Caetana para além de  ser jornalista era pós graduada em Etnologia das Religiões , lera as obras do professor Moisés Espírito Santo acerca da virgem , as origens  do Cristianismo desde que começara a relacionar-se com alguém  que se dizia ser a escritora inglesa de policiais Agatha Cristie .O saber era traído pelos interesses económicos , políticos e religiosos, nisso Carlota Joaquina  acabara por concordar a muito custo com a jovem marxista  Caetana.  De um momento para o outro gerou-se o pânico naquele bar  uma jovem  começou a dizer para se retirarem todos do bar pois alguém telefonara a dizer  que havia uma bomba  lá dentro . O universo era  uma farpa constante onde pretendia atingir o golpe certeiro quando lhe vendavam os olhos .




  
Que lobo  interrogou alguma vez uma adivinha ?  As  grandes questões seguirão em seguida em  forma de imagens e  quadros , ou mesmo até de manga japonesa e ela  poderá reverter  os seus meios  para as personagens onde uma  das personagens poderá  transformar-se de leão e o único antídoto será a planta da eterna  juventude . Acreditam  para ver .É escolher  para ver .  Escrevam-nos . Até amanhã .

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