fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Fotosssíntese Capítulo Oitavo


Conhecendo a razão porque a cidade de Ur havia sido arrasada, Naram-Sim saía de uma tese. Não era ele certamente, mas tinha um rosto jovem escondendo o seu espírito milenar. Cheio de preocupação, desvario  e tristeza, sofrendo com o  espectáculo do seu domínio ameaçado pelos Lullubi e os Gutti, “povos opressores e ignorantes do culto dos deuses “ enquanto o exército das fronteiras se mostra incapaz de conter a guerilha. Contra a vontade dos deuses, o jovem tencionava colocar-se de novo no poder. Olhara para a rua naquele momento e via a sua amada. Ele “ O Deus “ estava de volta “ , mas via milhares de pessoas a nadarem freneticamente. Não os reconhecia. Nada. Olhava–a. Que coisas eram aquelas? Para onde caminhavam as pessoas? Onde estava?

Ela e um homem estavam a discutir. Ela devia ser a deusa porque estava dentro de algo mágico, mas não era só ela. Eram milhares de pessoas. Umas atrás das outras pareciam seres estranhos. Não se cumprimentavam. Decidiu entrar num local onde parecia ser possivelmente um templo aí estavam  algumas pessoas. Naram –Sim dirigiu-se ao altar e não se reconheceu que era da sua figura. Onde estavam os outros deuses? Gritou de um momento para o outro, mandaram calá-lo.

-        O homem caiu no chão  não se levanta, você e eu deixamo-lo cair lentamente. Tenta dar-lhe vários finais.

Apareceu a jovem que avistara à pouco.

-        Conheço-o?

  O jovem discursou numa língua antiga que Benedita reconheceu logo. Não podia ser. Não podia ser verdade aquele jovem da sua idade, ou mesmo um pouco mais novo começara a falar uma língua semita morta. A jovem historiadora tentou novamente agora inexplicavelmente ele  português, mas um português suave e doce do outro lado do atlântico. Apresentamo-nos. Ele disse-me ser fascinado pela cultura portuguesa. Impressionante nem ele estava a compreender porque falava noutra língua . Havia naquele homem qualquer coisa de exótico quando se apresentou:

-        Chamo-me Naram-Sim .

-        Naram-Sim? –perguntou ela .

-        Porquê esse espanto? –perguntou ele .

-        Porque Naram-Sim é uma grande figura histórica. Digamos  que se torna próximo  de uma personagem trágica. Mas a estratégia militar não é a minha área de especialização. Eu venho de outros campos das Relações Internacionais e decidi-me por tratar de uma deusa e da sua alimentação. Digamos que a guerra na antiguidade é um modo de vida  e ainda mais na pessoa de uma mulher. Estive a estudar uma vez um mito excelente o Pecado Mortal do Jardineiro que foi abordado por Samuel Noah Kramer.

Mas Naram- Sim não a ouvia, nem sequer a olhava. Olhava para um mundo que não conhecia e achava que era de todo imperfeito ao seu ponto de vista. Ele olha  para o vidro do carro quando começa a chover. Agora resumia-se a sobreviver num universo que não era o seu. Num mundo em que não reconhecia as pessoas que não o conheciam como Deus, como rei das quatro regiões e das quatro partes do mundo. Ele olhava para as multidões sem ouvir a historiadora. Acenava de vez em quando a cabeça e dizia que era disco-jockey numa discoteca e que viera do Brasil para  trabalhar na discoteca “O Vigário”.

Bendita sorriu e disse-lhe que ela era a relações públicas daquela discoteca. A coisa mais divertida é infelicidade, dizia Becket e como postulado deliciamo-nos com as tristezas dos outros e no fundo dizer mal sabe tão bem, que acabamos por nos refastelar com todos estes repastos. Enquanto comunicavam abertamente os pensamentos de Naram-Sim iam para além daquela mortal mas sim de uma placa descoberta algures e que possivelmente estava naquela discoteca, ele era o agente secreto para desvendar aquele enigma. Era nesse âmbito que ele estava ali para contar a história da ascensão e queda  de um homem e tal como a sua bem amada Deusa descera aos Infernos. Ele dizia  que regressava de Paris de um concurso de DJ mas na realidade fugira de Paris do Louvre de onde a sua teara de cornos onde estava disposto a sua prova de divindade. De um momento para seria um daqueles  momentos mais excitantes era repor a ordem do universo.  Mas o destino não quis assim as coisas , quis que fosse acusado de um crime. Estava agora muito envolvido com o trabalho e dizia  que vinha para Portugal orientar uma tese de doutoramento  A Hierarquia dos Demónios. Tratava-se de um trabalho inovador no âmbito da informática em que o doutorando se especificava a fazer uma espécie de jogo, mas essa era a  sua sobrevivência. Mentir . Mentir para não ser descoberto, sabia  no entanto que se estavam a realizar experiências a partir da tradução desse mesmo texto  e que seria esse o objectivo encontrá-lo enquanto antes. Com esse texto só seria reposta a ordem do universo. Mas a notícia do atentado da bomba que ouvira no carro  onde seguia com Benedita para a entrevista fictícia da discoteca “ O Vigário” deixava-o nervoso. Benedita ficou alarmada com tal assunto conhecia-os a todos e decidiu ir até lá. Deu-se conta de que a sobrevivência é como tomar uma aspirina , alivia as dores mas não faz mais do que isso. Todos nós nascemos e morremos, mas continuamos a sobreviver e mais uma vez lembrou-se de Madalena. Enquanto sobrevivemos falamos mal dos outros para  conseguirmos viver, abrimos a gaveta da nossa primitividade e vemos os bichos monstruosos  que temos dentro de nós. Agora estavam em pé de igualdade. Benedita e Sim como ela optou por chamá-lo. Acreditou que ele era brasileiro e que usava  aquele nome como nick.Coisa  que ele pôs –se a pensar a partir daquele momento. Aquele nome seria demasiado incomum? Quando via as imagens  que habitam nos museus jamais poderiam as pessoas pensar os sacrifícios que eles tiveram  ao ser feitos pelos seus artesãos. Não acreditaria ele nos mortais? Seria como uma ostra  que seria danificada porque se partira e se havia feito em lágrimas.

Tentando sair do desânimo em que se encontrava Bendita tentou dar a volta por cima dizendo-lhe:

-        Bem vindo ao mundo da banda desenhada dos quadradinhos e dos balões. É pena que para uns ela seja a três dimensões. Assim qualquer pessoa  pode entrar na realidade virtual!

-        Mal sabes tu que isso é possível que o nosso grupo faz isso, ainda mais agora que a minha filha desapareceu.







A  partir de uma enormidade de séculos de desgraça o rei sumério da desgraça Naram- Sim e seu avô Sargão de Akad decidem viajar pelo futuro ,o mais travesso  adolescente de dezassete anos e ao mesmo tempo dedicando-se à leitura de romances de adolescentes para tentar compreender os  humanos do futuro.