fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

terça-feira, março 25, 2014


Temos diante de nós a nossa vítima. A primeira depois  do nosso querido e útil Job. Ali está ela! Linda de morrer. Não sabemos como é que estas criaturas se habilitam a ficarem fechadas durante tanto tempo para depois ficarem como? No desemprego? Ah! Ah! Job! Não queres uma noiva? Temos uma para ti? Olha é desempregada, está numa fase difícil! O marido parece que vai ser despedido! Ah! Ah! Vai! Anda! Toma esses comprimidos! Bichaninho! Minha linda! Morre! Nós temos que fazer pela vida! Nós aqui em cima decidimos se tu ficas ou vais!

- Olha lá e agora como é que eles pagam o funeral? – pergunta Deus num tom irónico. Essa foi de mestre! Doença! – Diz Deus brindando com um copo cheio de uma bebida parecida com cerveja.

- O marido rapa o cabelo e finge que está a fazer quimio! – responde o Diabo a rir.

- Não me digas que ele consegue enganar toda a gente?!

- Meus senhores, Posso fazer uma pergunta? – diz Job.

- Fala desde que não tenhas nenhuma ideia brilhante, para isso cá estamos cá nós! Fala! Tens meio segundo!

- Olha! Acabou! Tchau! Continua a chorar! Ainda bem que não temos por aí nenhum psicólogo, se não já viste este fulano com a estima por cima! Vai com as chamas! Meu triste!

 De súbito aquelas maquiavélicas criaturas observam o sensor do computador e reparam na imagem angelical de uma mulher. Linda. Inteligente. Trabalhadora. Tem alma. Monárquica. Mas o seu grande amor é comuna! Veste-se à moda, dir-se-ia que seria modelo, mas o discurso é antigo! Parece decalcado de um panfleto do PCP. Lindo de morrer. A questão centra-se nestas duas figuras. Tal como acontecera há milhares de anos com Job, a falsa amizade entre estes dois seres resume-se em destruir vidas. Encontram-se a beber o néctar da desgraça, uma bebida que para os seres do Além é uma espécie de cerveja. Encontram-se no “Eterna Saudade” numa hora em que não chegam mortos, para serem atendidos por uma mulher bela mas que não tem paciência para os clientes, a que eles chamam “Mulher Demónio”, ironicamente. Diante destas brincadeiras suaves de velhos inimigos dá-se o compromisso de destruírem uma relação que se resume pela diferença. E como a encontram?

- Não será pela morte? Ou a sua carreira? A sua tese de doutoramento? – Pergunta o Diabo.

- Deixo à tua escolha, meu caro!

Olharam mais uma vez no ecrã. Observaram o rosto de uma jovem mulher na casa dos trinta anos atarefada em bibliotecas com documentos e livros. Olharam ofegantes para aquela mulher de lábios carnais. Cabelo preto e olhos azuis. Não era assim que o Demónio imaginara Lilit?
E Deus não imaginara a sua nova virgem? Aquela a que pensara durante toda a eternidade transformar uma nova beleza em que os homens gostassem de ter como modelo de mulher? Virgem? Defensora da religião, detestava as conversas de Titas, mas amava-o por isso era tudo aquilo que desejara sempre num homem que contrariasse a sua família.

Não é que Deus e Demónio ouviam os seus pensamentos? Deus estava a ficar certamente decepcionado com aquela beleza moderna. Como queria enviar o sopro divino sobre ela e dizer-lhe que seria aquela a sua escolhida?

Pela obra escolhida nada disso lhe era permitido, Maria estava cada vez mais ciumenta e os famosos teólogos observavam as suas acções. Não eram bem vistas as suas saídas com o Demónio àquele bar, mas justificavam a causa da dor. A morte, a separação, essas coisas idiotas que hoje os psicólogos levam a analisar, porque não sentir o cheiro da carne a arder? Longe iam esses bons tempos em que a dúvida era quase um pecado mortal e para demonstrar esse bom acto de ser cristão ou devoto de Deus se havia de emparedar? Oh que maravilha esses tempos! Sentir os cheiros do medo e levar as pessoas a inventarem na hora vocações! Bons tempos quer para Deus, quer para o Diabo!Olharam – se e fixaram os olhos no computador e sentiram mais uma vez os olhos naquela mulher que ao fim do dia ia beber o café numa esplanada à beira mar e ouvir as ondas falarem com ela.

- O tempo -pensavam eles - é um perpétuo presente. Os escassos minutos em que Demónio e Deus se entenderam acabaram por discutir no momento em que chegavam mortos. Uns e depois outros. E cada vez mais outros. Uns piores que os outros, que o Demónio não deixou de largar uma gargalhada. Ninguém fazia ideia porque eles estavam naquele sítio para espanto de todos. Dizia-se que era o acontecimento do ano, do século, do milénio, da História Bíblica. Para vós tudo isto tem uma outra dimensão, algo que entra dentro  das nossas entranhas e que se apresenta como um choque eléctrico, foi tudo isso que Sancha sentiu naquele momento e por isso tirou da mala uma carteirinha que pouco depois viram ser cigarros. Eram aqueles os momentos de paz que Sancha tinha durante o dia. Por opção decidira viver sozinha. Algo que veio na cabeça daquelas duas “pestes”. O que magicavam nas suas cabeças não nos era acessível. Mas o que veio a seguir meus senhores, foi pura e simplesmente algo que nem o Diabo nem Deus pensaram. Job acabara por se apaixonar por Sancha e isso acabaria por tornar os planos dos nossos queridos amigos difíceis, mas isso só depende da capacidade de cada um de vós aguentar as consequências.