fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

quarta-feira, março 26, 2014

Memórias


Procurei na Idade Média as histórias de príncipes e princesas, mas depressa descobri que a Idade Média era muito mais do que isso, era muito mais do que aquela noite dos mil anos que me tentaram um dia vender. A Idade Média está acima de tudo nos atalhos que os investigadores fazem para encontrar as pessoas que lá estão nos buracos, nos infernos, purgatórios e paraísos da manhã de ontem. Olhei então para o mar e tirei um cigarro da mala. Ando a fumar imenso. Quando vejo Titas, enervo-me bastante. Penso na forma como irei falar com ele quando o encontrar, porque me irrita aquela forma que ele tem de olhar, de que o mundo é todo dele. Sim, ele é o meu príncipe. Ele tem tudo o que me irrita. É de Esquerda, é a favor da despenalização do aborto e eu não sou, não quero aceitar a morte de um inocente. Pronto! Não aceito a morte de um pessoa que está numa cama, nem me venham com as histórias da legalização das drogas leves. Mas Titas beija bem. Consegue hipnotizar-me! Ainda me lembro de ir ver ao cinema filmes que nem se quer gostava só para o ver, sentir a sua presença. Estar sentada ao pé dele. Sabia que ele gostava de outras pessoas, que preferia a companhia dessas pessoas à minha, mas eu esquecia tudo e queria acreditar que um dia ele viria ter comigo trazer-me um ramo de flores, ou de uma outra forma mais guerreira me levaria nos seus braços e me raptaria. Estaríamos os dois a fazer amor e depois comentaríamos qualquer coisa. Olharíamos o nascer do sol e beberíamos um café pela Baixa. És tão falso, Titas. Só de me lembrar que me deixei enrolar pela tua conversa da treta, de fumar um charrinho para ter um minuto de atenção. Os homens não prestam. Mas hoje sei que me amavas e que essa era a sua forma de agir com todas as pessoas. Aquele sorriso desconcentrava-me completamente! Bastava-me vê-lo e ficar de rastos!

Não sei o que se está a passar comigo mas desde algum tempo para cá cada vez que olho para as representações de D. Sancho I vejo unicamente uma pessoa: Martim ou Titas no melhor dos casos. Lembro-me sempre dele cada vez que pego na tese, há qualquer coisa que não está a jogar bem. Bem sei que a sua morte não me deixou nada bem, acredito que por vezes nós temos a tendência para exigir, para reclamar. Fui usada por ele, ou eu usava-o para deitar fora a minha tensão que sentia na altura da Faculdade. Encontrávamo-nos no mesmo café onde agora estou, e ele falava-me de que eu era uma menina mimada, nunca olhara para a história medieval do ponto de vista dos vencidos e falava-me da história escrita por Álvaro Cunhal, descrevia-me os relatos de Fernão Lopes das lutas de 1383/1385 que eram a base do povo, das lutas, dos pormenores onde se via o princípio da descrição de um grande escritor. Apesar das nossas diferenças Titas completava-me, tinha-me dito um bruxo que, um dia, o meu grande amor decidiria mudar a minha vida, fazer uma introspecção. Ele dissera-me que nós nos completávamos mas nunca teríamos a mesma opinião. Hoje acredito nisso! A vida encarregou-me de trazer as recordações como se estivessem expostas numa bancada de um hipermercado à mão de semear. Gostava de sentir a sua pele de bebé, o seu rosto de manequim e a sua aparência de dandy. Fascinava-me o seu aspecto de revolucionário, talvez tenha esse aspecto que veja agora em Sancho I. Ele era agora o meu menino. Via-me ali com ele a falar, enquanto observava agora os namorados a falarem apaixonadamente. Arrependera-se de não ter tido um filho dele pois acreditava que ia ver renascer a cara do pai no seu filho, pois tal como diz a tradição os filhos são a continuidade dos pais. E agora estava ali a saborear recordações. Estava na Idade Média. Fixara-se na figura de um homem, porque como lhe dizia a sua amiga Muema que D. Sancho I era a cara de Martim. Sim, ele era o filho que ela não tivera dele, porque era demasiado pudica ou epistolar. Ficava-me pelos e-mails, quando no fundo tinha uma enorme vontade de o olhar e dizer que o odiava.

A última vez que nos encontramos na faculdade virei-lhe a cara, queria fazer-lhe sentir que ele não me dizia nada, mas Titas era sempre um presente para os olhos onde quer que o visse. E agora estou aqui a matar-me aos poucos! A fumar! A sentir este sabor a nicotina como se estivesse a pedir à morte ou a qualquer ser superior para me vir buscar em suaves prestações. Martim. Talvez tenha sido a tua ousadia que me fez pensar na minha vida, quando tu me disseste nesta mesa que eu queria investigar a figura de um rei apagado porque os meus pais desejavam um homem e não uma mulher! Como aquilo mexeu comigo! Agora bebia o café e aquele líquido na minha boca tinha um sabor estranho não me sabia tão bem como acontecia normalmente.Sancha sentia estranhamente que a observavam ao longe, talvez alguém que não via há muito tempo.Ao ver o mar sinto uma segurança nunca vista, um universo capaz de trazer compensações que nestas alturas as memórias fazem doer, uma espécie de caixas de mágicos onde as facas nos vão entrando na alma e isso faz parte da memória, cada parte uma mais afiada que outra. Aqui e ali a dor é una. Um dia ao falar disto a Moema senti que Sancho I e Titas são o mesmo não sei porque me deu esta ideia, mas foi como se alguém se me preparasse uma armadilha para enganar a morte de Titas. O que Titas me havia dito naquela tarde... Agora eu tinha um único pensamento, estudar Sancho I era uma forma de manter a memória de Titas/Martim vivo.

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