fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

segunda-feira, julho 16, 2012

A propósito do livro “ Manifestos Contra o Medo”

Luís Norberto Lourenço (autor do livro), José Carlos Casaquinha (apresentador do livro) 
e Luís Miguel Ensinas Nunes (Director Biblioteca Municipal de Portalegre).



A Escrita como Processo de Transformação do Real*

[a propósito do livro “ Manifestos Contra o Medo”]

Biblioteca Municipal de Portalegre

Falar de um livro é, desde logo, falar do universo do autor: da sua realização social, do reconhecimento que conquistou ou não, da sua atividade socioprofissional; é refletir sobre o seu universo socio-afetivo, sobre a forma como foi narcisado, sobre os interesses, opções, motivações, sobre as paixões, as amizades, os desencantos.

É todo este percurso de aprendizagem, de vida, extraordinariamente pedagógico e único, que gera em cada um de nós, uma sensibilidade peculiar, uma certa forma de captar o nosso real e interagir sobre ele numa perspetiva de influenciar, de transformar, de reparar: um processo que é único em cada um de nós e que nos torna, também seres humanos únicos.

O processo criativo – seja a literatura ou outros - constitui uma forma, de o criador analisar a sua realidade, uma forma de ele próprio se encontrar, se arrumar, se ajustar. Quer dizer: ao construir para o exterior, para ser lido, visto, ouvido, o criador plasma na obra a captura que faz da realidade e, neste processo, está também a analisar-se, a recompor-se, a reparar alguma coisa que existe dentro de si, como se enclausurasse no livro o seu sentir, os seus anseios, os seus medos.

Nesta perspectiva, o processo de escrita faz parte da oficina que temos em cada um de nós e que serve para pensarmos refletirmos, transformarmos o nosso real e, nessa transformação, transformarmo-nos a nós próprios num sistema adaptativo permanente à dinâmica da vida. O tempo de escrever, é um tempo solitário, de evocação, de idealização, de libertação: cada palavra, frase, cada texto, constitui um partejar de meditações, fantasias, sonhos ou desencantos, frustrações, angústias. Escrever é dar um grito, é uma forma de exorcizar e projetar o nosso desassossego.

O livro “Manifestos Contra o Medo – Antologia de uma intervenção cívica”, do Dr. Luis Norberto Lourenço, devolve-nos a sociedade em que vivemos, em toda a sua complexidade: produzido por uma mente extraordinariamente rica, inquieta e interventiva, “Manifestos Contra o Medo” envolve-nos em temas tão diversificados como medicina, violência, nazismo; bibliotecas públicas, aborto, judeus; jornalismo, racismo, reforma agrária; amor, política, direitos humanos.

Em toda esta complexidade o autor fala-nos da sociedade que temos vindo a construir, devolvendo-a à nossa análise, inquietando-nos com ela mas, mais: desafiando-nos a resistir, a agir, desafiando-nos a construir um mundo melhor.

Socorrendo-se de um processo panfletário na construção da narrativa (aliás, também usado por Eça de Queiroz na critica mordaz à sociedade do seu tempo), o autor propõe-nos um olhar tomográfico sobre a sociedade, descortinando, em vários planos, aspetos marcantes do nosso real social: uma realidade que nos limitamos a viver, de forma leviana, acrítica, adormecida.

Num labor militante e analítico de produção literária ao ritmo das ocorrências da vida social, o escritor convida-nos a uma vivência mais atenta, refletida, interventiva, desafiando-nos a tomar partido nas realidades que ocorrem no nosso dia-a-dia. Tomar partido, sem medo, intervindo de forma organizada, numa dimensão democrática: individual, grupal, social, até influenciar positivamente, os acontecimentos da nossa sociedade. Ao longo do livro vamos recordando temas que incendiaram as páginas de jornais, abordando-os agora à luz do pensar esclarecido, vigilante, crítico e livre de Luis Norberto Lourenço.

Mas, o que descreve o livro? De que se ocupa? Do nosso real social: da complexidade das dinâmicas sociais: do amor, do aborto, dos direitos humanos; do 25 de Abril, das elites, do fim do ensino público; da política cultural, da abertura das bibliotecas ao fim de semana, (como em Espanha), da democracia; da ética, dos juízes, dos comboios da Beira Interior; do racismo, da medicina, de Aristides de Sousa Mendes; da Constituição, da abolição dos partidos, do valor da cooperação.

98 artigos: uma intervenção crítica notável na qual o autor nos devolve, de forma inconformista e consequente, o retrato inquieto da sociedade que temos vindo a criar, uma sociedade que necessita de ser consertada. 98 artigos: uma intervenção crítica notável que nos deixa, do princípio ao fim, num dedilhar curioso e ávido de páginas.

14/07/12
*Por: Carlos Casaquinha 

Vista parcial dos tertulianos presentes.

Foto ilustrativa do empenho promocional do livro da Biblioteca Municipal de Portalegre.

Nota editorial:
A Casa Comum das Tertúlias organizou uma tertúlia na Biblioteca Municipal de Portalegre, no dia 14 de Julho de 2012, pelas 21h 30 (que entrou pela noite dentro... até à 1h), para mais uma (a 4.ª, depois de Castelo Branco, Algés e Caldas da Rainha) apresentação do livro "Manifestos contra o medo: antologia de uma intervenção cívica", de Luís Norberto Lourenço e prefaciada por Luís Raposo (Director do Museu Nacional de Arqueologia), inserindo-se esta obra na colecção "Rosa Sinistra", sendo o número inicial da mesma. A apresentação do livro contou com a presença do autor e esteve a cargo do enfermeiro José Carlos Casaquinha, o qual fundou com o autor a iniciativa cívica e cultural "Espaço Tertúlia", em Portalegre, em 2002. Conta o evento com o apoio da Câmara Municipal de Portalegre e da Biblioteca Municipal de Portalegre. A CCT e o autor agredecem a todos os elementos da BMP que aguentaram estoicamente até à 1h! O cartaz e o convite deste evento foram elaborados por Hugo Domingues. 


O texto aqui publicado é aquele lido pelo Carlos Casaquinha na apresentação.

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