fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

quinta-feira, julho 19, 2012

“O Público ao domingo não se diverte(…) , o público cura-se .”


Neste momento centremo-nos nestes dois objectos e as suas principais funções: uma caixa de antidepressivos, duas  bandarilhas. O que é que isto quer dizer? Qual o propósito desta análise? Hoje em dia todos nós não dispensamos uns comprimidos antes ou depois do local de trabalho, uma espécie de capsula anti-stress. Estes dois objectos têm esse mesmo [1]efeito, “não fazem pior, apenas curam “e apenas curam porque estamos diante de uma cidade que durante muito tempo foi um local empreendedor onde trabalhavam milhares de pessoas, sob as mais penosas condições.

É sob o lema “Ao domingo o público não se diverte, mas  cura-se “citando Ramalho Ortigão que se coloca  a favor das touradas e por outro lado Fialho de Almeida está pelo lado contrário .Ora, para os olhares mais distraídos que nunca viram a praça de Touros Carlos Relvas ela  foi em  tempos palco de acessos debates a favor ou contra a sua inauguração. Não é de ontem que  as polémicas contra as touradas  e a sua discussão em torno delas, não é que morra de amores  por touradas, mas o que me interessa aqui é o discurso inflamado por parte dos público sadino e daqueles  que escreveram nos jornais  da época Um exemplo disso  é o caso  de uma carta assinada por Georgina  Novaes insurgindo-se  contra   a inauguração  do recinto. Segundo ela “uma nova  escola de instrução pública não  teria, decerto, tantos admiradores  e amadores. A prova evidente  de que povo  precisa de escolas e não de praças de touros, é a maneira  como ele  corre  pressuposto  a aplaudir  e aclamar  um  espectáculo inumano, bárbaro, perigoso e repugnante, espectáculo  que faz recordar  os circos da antiga Roma” . 

“O Público ao domingo não se diverte(…) , o público  cura-se.”

Venho falar-vos de dois desportos que nos permitem  não só ver a semelhança  entre estes. Os aficcionados  e aqueles a quem continuam  a promover tertúlias contra as touradas. Ontem tal como hoje se promoveram  movimentos contra touradas. Formar-se –ão grupos muito restritos  onde os pescadores  seriam aficionados das touradas. Daí  ter escolido como tema para esta comunicação uma  frase de Ramalho Ortigão  “ O público não se diverte ao  domingo  (…)  o público cura-se ao domingo (…)”

Estamos perante uma descarga emocional ou um desporto violento? Temos alienação ou prestígio nacional? Como foram vistos estes  fenómenos em 1885?

Em Setúbal ,tal como em Lisboa, as touradas atraíam  um público numeroso,sedento de emoções fortes. Era  um espectáculo brutal ,muito ao jeito do povo latino, arreigado ao temperamento dos homens do mar. Com o tempo, os touros serviram de escape às emoções acumuladas, friuto de tensões sociais que então se viviam, e encontraram  no esquema  cultural do país. No rasgo do bairrismo e de apego às actividades recreativas características dos portugueses, Ramalho Ortigão criticava a implantação despropositada  de espectáculos desinseridos do nosso contexto social e considerava que  Lisboa (…) faria talvez bem abstendo-se “, de início, “de corridas de cavalos, para cujos os esplendores “não tinha ainda nem a tendência suficientemente atrevida “. Assim, enquanto não se desenvolvesse “um pouco mais “deveria  continuar a regalar-se  como até agora  nas suas velhas  touradas  honestas e valorosas “

Mas como, segundo as autoridades, touros e civilização não se combinam, desenvolveram um processo  visando por cobro  aquele  aviltante espectáculo. Foram proibidas as pegas, facto que Ramalho Ortigão em 1881, pois o povo trabalhador  podia extrasavar toda a tensão  acumulada ao longo de uma semana  de “submissão e obediência “;  ele necessitava de gritar  com o touro porque não podia fazê-lo com o chefe : “O público ao domingo não se diverte, (…),o público ao domingo cura-se”. Em Lisboa  a “onda “, em vez de ir para o campo, ia à tourada  porque o que queria  era “berrar “,e ali podia fazê-lo .Entretanto ,a crítica denunciava “com  palavras acerbas, a “depravação “do gosto  dos portugueses (…) que em vez de irem aos  concertos, se deleitavam .Se a tourada é defendida como forma de aproveitar os tempos livres  como norma de se rebelar contra os chefes durante a semana, e assim  também é o desporto rei exportado da  Ingalterra tem as mesmas funções abrindo quase funções guerreiras ou mesmo simbólicas perante o aspecto guerreiro, masculino. O futebol foi reunindo um grupo de trabalhadores vindos do operariado e que lhes permitia dessa mesma  forma trazer  não só vitórias, mas construir também um elo de ligação perante os quadros  da empresa onde trabalhavam. [2]

É  neste sentido que decidi  exprimir uma  proximidade entre dois géneros de desporto firmados  pela  polémica  entre os autores nacionais, como pelos jornais que em seguida iremos ver e também pelos  trabalhadores. Será o a tourada um meio de alienação? Serão os setubalenses sanguinários?

Se formos  bem ver  as coisas os discursos  em pouco mais de cem anos não mudaram  muito, como atesta  Maria da Conceição Quintas em Setúbal nos finais do século XIX “Acabem agora com as touradas, assim como já acabaram com as pegas, obriguem  os homens de ofício e os homens de trabalho a irem em todos os domingos de tarde espectar-se na Trindade a ouvir música clássica dos espiritualistas alemães –maçadores como tudo! -e verão o lindo povo de palermas que aí se arranja para se rabejar  platonicamente a si mesmo nas lides da Ideia! (…) “

Ideia contrária tem  Fialho de Almeida que se concentra num debate sobre este tema, considerando-o  “selvageria das touradas “.

Mas sendo as touradas um desporto, um quiça um espectáculo selvagem como ligá-lo às  festas religiosas? Como pode ser possível reunir campeonatos de futebol na Praça de Touros Carlos Relvas dali a alguns  anos? Podem estes dois  desportos ligar-se?  Quais  são as  suas  semelhanças e diferenças?
Como ao longo deste último século foram sendo representados nos diálogos entre intelectuais?

É certo que este é um tema que tem vindo a acender opiniões, e muitos deles são criticados a favor e contra, eu ponho-me na bancada do meio, nem a favor, nem contra, tenho familiares que são cavaleiros tauromáquicos e grande parte dos portugueses o são, e encontramos muitas vezes olhares de censura. Muita coisa ainda está por fazer e merece sem dúvida um estudo, algumas pessoas já o fizeram a nível, antropológico e na área da etnologia das religiões. Mas a nível historiográfico ou museológico para quando é que podemos encontrar este género de estudos em Portugal. Enquanto historiador preocupa-me porque razão é que as pessoas ainda não se debruçam nestas matérias. Será que as touradas portuguesas não teriam direito ao seu estudo? Se há já áreas de especialização em Portugal que se dediquem a estudar jardins, ou noutros casos adivinhas, proponho que estudem as touradas e digo-vos que elas estarão muito mais perto de nós, do nosso quotidiano que alguma vez pensamos. Tal como a psicologia, e neste caso o coaching que está agora na moda, não se pretende de algum modo  resolver aquele problema, mas trabalhá-lo e encarar neste caso o touro que temos à nossa frente.

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[1]  Cf O Distrito  3 / 10/1889 carta  de Georgina Novaes citado na Praça de Touros Carlos Relvas, Setúbal.
[2] Cf Maria da  Conceição Quintas, Setúbal, Economia, Sociedade e Cultura Operária -1880-1930, Ed. Livros Horizonte, pp. 324.

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