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terça-feira, outubro 20, 2009

Os princípios da Neo-língua*

Os princípios da Neo-língua

A Neo-língua é a língua oficial da Lusitânia e foi concebida para satisfazer as necessidades ideológicas do Luseduc ou Ensino Oficial e Particular Português. No ano de 2009 ainda não há ninguém que use a Neo-língua como exclusivo meio de comunicação, quer oralmente quer por escrito. Os artigos de fundo do Mineduc, por vezes transcritos no Diarep, vêm redigidos em Neo-língua, mas isso constitui uma façanha inefável, só podendo ser levado a cabo por especialistas. Espera-se que a Neo-língua destrone o Português-padrão, por volta do ano 2070.

O propósito da Neo-língua pretende não apenas proporcionar um meio de expressão para a visão do mundo e os hábitos mentais específicos dos usuários do Luseduc, mas também tornar impossíveis todas as formas de pensamento. Pretende-se que, quando a Neo-língua for definitivamente adoptada e o Português-padrão cair em esquecimento, todo o pensamento herético – isto é, qualquer pensamento divergente dos princípios do Luseduc – se torne literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende da palavra.

O vocabulário da Neo-língua é construído de modo a exprimir com exactidão, e muitas vezes com grande subtileza, qualquer sentido que um funcionário sob dependência do Mineduc possa querer exprimir, excluindo, ao mesmo tempo, todos os outros sentidos, e também a possibilidade de chegar a eles por meios indirectos.

A Neo-língua baseia-se na língua portuguesa tal como hoje a conhecemos, embora as suas preposições se tornem obsoletas. Ao contrário, o vocabulário da Neo-língua enriquece-se de formas verbais quase exclusivamente usadas no modo infinitivo. As palavras da Neo-língua dividem-se em três categorias distintas, conhecidas como vocabulário A, vocabulário B e vocabulário C.

O vocabulário A, de todo imprescindível, é constituído quase exclusivamente por verbos no modo infinitivo. A maioria deles implica a promoção e apreensão de matérias e acções. Enumera-se, a título de exemplo, alguns: promover, sensibilizar, proporcionar, facultar, garantir, facilitar, permitir, motivar, desenvolver, incentivar. Ressalve-se, contudo, que o conceito de “permissão” se restringe àquilo que é facultado, não devendo ser tido em conta o carácter evasivo da palavra, restringindo-se assim a sua semanticidade.

O vocabulário B, fundamental, pode considerar-se de difícil apreensão, porém, a sua perfeita utilização facilitará ao respectivo falante a exactidão dos seus propósitos nas determinadas situações de comunicação. Note-se que a Neo-língua foi concebida não para aumentar, mas para restringir o campo do pensamento, propósito indirectamente servido pela redução ao mínimo da gama de palavras e pela distinção exacta entre palavras de semanticidade próxima. Reduzindo-se o leque de palavras, pôde aumentar-se um pouco o número de ocorrências de sinónimos-falsos (considera-se que se tratam de falsos sinónimos os vocábulos que, tendo um significado semelhante, se distinguem por nuances decisivas). Algumas dessas palavras são as seguintes: conteúdos (apenas concebidos a partir de orientações programáticas), temas, semas, objectos, programas, currículos, projectos, ideários, objectivos, metas, prioridades, fins, intuitos, finalidades, propósitos, intenções, desígnios, intentos, vontades (tome-se este último termo no sentido pragmático, devendo ser esvaziado do carácter autonómico que era usual no Português-padrão).

O vocabulário C, basilar, compõe-se integralmente de palavras-chave e siglas que dizem respeito às particularidades fundamentais da Pedac (acção pedagógica) e que, nalguns casos, podem surgir no vocabulário B: PEI, PE, PCT, EE, PIT, AP, EA, Projecto (palavra que deve ser usada sempre com maiúscula e que, em certos casos, pode ser substituída pela forma uniforme PROJ, sempre maiusculizada), recursos, actividade (também substituível por ACTV), planificação, avaliação (substituível pela forma SOM), competência (ou COMPT), estatística, prestação de serviço, relação contratual, descritores (ou DSCRT), evidência, desempenho, articulação, currículo (ou CURRI), recurso.

A palavra pensamento deixa de existir na Neo-língua, sendo substituída por um verbo (usado no modo infinitivo) que é exaurido de conotação autotélica e individual, devendo estabelecer uma prioridade colectiva. Assim, pensamento, palavra usada no velho Português-padrão, é substituída por planificação ou, somente, PLANIF. Nesse caso, o falante, querendo ainda vincar a sua identidade, poderá dizer – o que é socialmente aceitável – euPLANIF, ou preferencialmente MimPLANIF, que, no velho Português-padrão, se entende literalmente por “tive uma ideia”, “este é o meu raciocínio”, “cheguei a esta conclusão”.

O vocabulário da Neo-língua, no seu todo, destina-se a impor uma atitude mental desejável a quem o utiliza, reduzindo as possibilidades de refutação e livre-pensamento. Por atitude mental desejável entenda-se a incapacidade para ter ideias próprias, e, por outro lado, as competências para o preenchimento de guidelines.

António Jacinto Pascoal

(Professor)

*Texto enviado pelo nosso amigo e colaborador tertuliano António Jacinto Pascoal.

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