fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

terça-feira, novembro 07, 2006

O WESTERN DA MINHA ADOLESCÊNCIA*

Na minha terra era assim. Lá no meio do mato, no dia em que havia cinema jantava-se mais depressa, enfiava-se a roupa de quase ver a Deus, e numa corrida, postávamo-nos no barracão em que assistiríamos à ansiada projecção, em meio de incontornáveis procelas. O senhor encarregado da magia subia as escadas enquanto nós nos acomodávamos nos bancos mais do que menos duros.
No túnel de luz que nos vinha por trás da cabeça, e bem lá em cima, o volteio dos morcegos regia a sinfonia dos ais das mães. Começava o acenar de lenços, vindos de casa já preparados para o percalço, tipo partida de barco transoceânico. Não contando com a coruja cinéfila que se misturava com a restante plebe e que, no intervalo, nos olhava do seu ponto de mira, na borda do fosso de orquestra.
E tinha início a aventura. Por vezes apenas um dos melhores filmes indianos que pululavam pela colónia; elanguescentes mulheres enroscavam-se em colunas enquanto lhes saía pelos lábios um lânguido e crescente cântico. Do cântico sabíamos pouco para além da melopeia. Ficávamos pendurados nas legendas, à procura de sinais inteligíveis por entre chuvas de riscos e manchas negras. Quando não em movimento uniformemente acelerado.
Outros dias, porém, a sessão era a sério. O filme, recomendado, trazia uma enchente ao barracão. E lá estávamos, ávidos de acção ou intriga.
Aquietados, todos, morcegos, coruja e gente, bebíamos o mais empolgante enredo.
Subitamente nada daquilo fazia sentido!
Ao fim de meia hora de perplexidade, alguém mais afoito perguntava: que bobine é essa?
Desvendava-se o mistério! O senhor projectista começara a sessão pela terceira bobine, já com várias interrupções, pois que entretanto o filme partira, ou a luz fundira. Da primeira passava-se à segunda, e depois víamos a quarta. Não havia mais noite que chegasse para tanta desordem. Já se aproximava a hora do sono da coruja.
Eu estava na adolescência.
Mil águas correram sob todas as pontes Mirabeau dos meus países.
Hoje, volto a jantar mais depressa, enfio a roupa de ver um deus menor e na mesma corrida, posto-me à entrada de obra maior do engenho humano, para ver o western da minha adolescência.
Nem morcegos, nem coruja, nem lenços, nem ais de mães! Só noite à minha frente, e o western da minha adolescência!
Encontro amigos outros e o mesmo desejo de ver um filme.
Subitamente, abre-se lenta e tímida, a porta da obra maior do engenho humano!
Aproximo-me do western da minha adolescência!
E…num murmúrio, alguém, pé ante pé, palavra a palavra, invoca o meu perdão.
Não há projecção do western da minha adolescência!
O senhor das chaves da sala não veio.
Estava anulada a sessão!!!
Volto-me para trás. Encontro a noite! Com todo o tempo para a coruja!

Maria Celeste Ceboleiro

(Nota:
escrito no regresso da não projecção de "Rio Bravo" - Outubro 2006, em Portalegre)
*Publicado no jornal "Alto Alentejo" em 1/11/2006, foi-nos enviado pela autora, médica, proprietária da Livraria 8.6 (Portalegre) e "nossa" tertuliana.

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