fanzine Tertuliando (On-line)

Este "blog" é a versão "on-line" da fanzine "Tertuliando", publicada pela Casa Comum das Tertúlias. Aqui serão publicados: artigos de opinião, as conclusões/reflexões das nossas actividades: tertúlias, exposições, concertos, declamação de poesia, comunidades de leitores, cursos livres, apresentação de livros, de revistas, de fanzines... Fundador e Director: Luís Norberto Lourenço. Local: Castelo Branco. Desde 5 de Outubro de 2005. ISSN: 1646-7922 (versão impressa)

Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

TRABALHOS DE ALUNOS*

Uma noite destas tive um sonho tão estranho que tenho que vos contar .
Estava procurando uma ideia para o fim desse Ulisses , sua mulher e seu filho Telemaco, que acabei adormecendo. Não é que entrei dentro do livro de português, gente? Minha avó dizia que eu tinha o poder de fazer as histórias acontecerem. Cada vez que lia uma história as personagens apareciam, talvez seja por isso que não goste muito de ir ao sítio de Dona Benta, nem falar com a Emília. Aquela boneca irritante. O que acontece na história de Ulisses é que eu vi tudo muito colorido, as letras passando na minha frente. Eu tentei agarrar uma e voei com elas. Pareciam andorinhas caminhando em direcção a uma casa. Lá dentro vi uma família feliz, gente mas não é o prato do restaurante chinês, não podem ficar descansados, nem do Macdonal’d. Lá dentro estava um casal e seus filhos contando uma história.
-Papai , conta a história da vovó e do vovô.
- Outra vez, Ceres?
- Sim, conta papai. Conta aquela parte como o seu cachorro reconheceu o vovó.
- Ai, menina. Você cansa minha beleza. Com tantos pedidos.
E era verdade Telemaco. Era filho de Ulisses e de Penélope. Era rei de um desses países. Mas parece que a história estava estragada, gente. O Ulisses não dava sinal de vida. Se calhar estava transformado num porco e voando como naquele anúncio da Redbull… mas não, passara muito tempo que Telemaco era rei, tinha dois filhos. Ceres e Orfeu. Ceres dedicada à deusa da natureza, agricultura. Qualquer coisa dessas, tal como o balão me falou. Orfeu, o filho dele em homenagem ao deus da música e de uma grande história de amor. Foi através dessa história que Telemaco conhecera a sua amada, uma jovem tão bela perto da praia. Ela lhe dissera que não podia estar muito longe, mas acontece se apaixonou perdidamente por ela e num desses dias. Descobriu que ela era uma sereia. Telemaco ficou “pirado“. Será que ela era uma daquelas mulheres que seduzira seu pai?
Ela lhe disse que sim, e que a deusa das artes, da História, a condenou a escrever um final da história diferente daquele que era conhecido. A maldição só seria desfeita quando aparecesse o filho de Ulisses mas ela só seria humana se ele lhe contasse o fim da história de seus pais (Ulisses e Penélope).
A sereia se chamava Soraia Chaves e andava sempre de computador, ou como eu digo de disco top, de óculos. Oh, gente não é o fim da picada? Não acham que ela é uma sereia abusada. Andar de volta de Telemaco… Pois é ele ficou caidinho por ela.

Neptuno não gostou mesma nada daquela história ,mas deu a via das dúvidas. Disse:
- Se você quiser… ele pode fazer a apresentação da história… isto é, do seu livro. Ah, seus tontos. Pensam que eram livros normais? Não, eram algas enormes que mudavam sempre de página.

Telémaco se apresentou. Disse: Tenho enorme prazer de apresentar o livro de Soraia , que se chama “Porque eu detesto a Odisseia e eu foi obrigada a ler ele na escola de Sereias “.
Telemaco contou que seus pais se haviam reencontrado muitos anos depois, ele estava todo enferrojado, cheio de roupas velhas, que lhe dissera que era seu pai, e que seu amigo Eumeu o ajudou a preparar uma partida aos idiotas que queriam tomar seu lugar. No lugar de aparecer minha mãe, ele fazia de pai dela, e dizia que só casaria com sua filha, aquele que descobrisse o que estava em cada bau, e que lhe entregasse o que tinha de maior valor.
No primeiro bau, estava vingre, no segundo havia uma malagueta e na terceira havia areia.
Cada um deles deu o que tinha de mais precioso e que só depois iria apresentar quem era o seu protegido. Os dados estavam lançados e aqueles babacas, andavam de volta dele cheretando tudo. Tentaram entrar numa das portas que diziam que dava acesso ao quarto de Penélope e assim fugir com ela, pois viram que ela desfiava tudo ao final do dia a bandida! Foi então que ouviram uma porta fechar –se diante deles, viram um vulto de um animal dizendo-lhes:
“Meus amigos de que vos serve darem de comer ao ganso, se ao fim do dia o vão degolar para o banquete? “
Os homens olharam uns para os outros.
- Fomos enganados por um cão…
-Sim, disse Argus. Sou eu o escritor desta história o cão, mais sábio do que essa sereia burra, leu Telemaco.
- Quem é você? –perguntou um dos prisioneiros.
- Esopo, sim escrevo fábulas…
- O que quer dizer isso?
Argus ia para revelar a sua história, mas calou-se e disse apenas:
- São horas do lanche! Adeus, vocês são o elo mais fraco!
- Papai, foi mesmo o seu cachorro que escreveu a história? –perguntou Ceres.
- Sim, disse ele. Mas porquê? E a mamãe?
- Eu sonhava que escrevia, dava um certo de senso de humor, lá em baixo era yum barato, mas aqui só se vêm algas. Quem sabe um dia os historiadores e os arqueólogos consigam descodificar e as minhas obras estejam em museus e sejam estudadas…
-Mas como é que se vai chamar a história mamãe?
- Odisseia…
-Vai por o seu nome, Soraia Chaves…
- Não, minha querida, disse a mãe. Todo o mundo vai pensar que isso é coisa de internet, eu vou escrever sob pseudónimo Homero. Porque ninguém acredita em contos de fadas, só nós não é meu bem? –disse ela piscando o olho a Telemaco.

*A partir de hoje deixo alguns trabalhos escritos pelos meus alunos de História, História e Geografia de Portugal. Esta foi uma versão final de Maria Eduarda Ormond.

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